Seguidores

sábado, 21 de dezembro de 2013

BOAS FESTAS




O vídeo é dum coro que dava no dia 25 de manhã na televisão e faz parte do meu imaginário de Natal - o coro de Santo Amaro de Oeiras.
Feliz Natal e Um Ano Novo Bom, com saúde, muita paz e amor.
Agora vou para Forninhos...até 2014.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O Inverno à porta...


Estava feito o sementio dos pães e dos nabais, e cabaneiros e lavradores abalavam para a serra a rapar o codeço e o tojo com que lastrar novamente os estábulos.
Vinha lá o Inverno - ouvia-se zoar muito a ribeira, e a Serra da Estrela mostrava desde a antevéspera os corutos emaçarocados de neve. E a chuva já estava em atraso, o grão por grelar na terra esmilhenta, onde os borborinhos faziam espojadoiros pasmosos de lobisomens. (...)
O sol ficava em casa de Deus, e os dias tinham a tristura das igrejas em semana de endoenças. Pelos morros, os pinhais, muito crestados da canícula, pareciam procissões de enterro, paradas a rezar.
O grande cão entrava sempre assim, enfarinhado de cinzas, manso, com a capa de penitente. Depois rompia aos uivos que nem cem matilhas a um lobo. Por aqueles outeiros arriba era o suão quem mais bramia, parecendo ora vozes a pedir misericórdia, ora bocas desdentadas de feiticeiras em despique danado. (...)
Andavam os pobres a lazarar, de povo em povo, sequinhos como as palhas em que se deitam. (...)
Os seres vivos acoitavam-se nos refolhos; raro uma lebre largava diante dos gados, animando a devesa imóvel de sua fuga alerta; um mocho, ao alto de uma penha, com a cabeça recolhida entre as asas, tinha o ar de quem espera o fim do mundo. (...)
Capucho de burel, apisoado em fráguas, em volta do peitaço, morca farta de torresmos, socos de encoiras altas, o serrano estava-se nas suas sete quintas e deixá-lo zurrar, que se acabasse o mundo.

AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo.

sábado, 14 de dezembro de 2013

É Natal...


É oficial, o Natal está a bater-nos à porta. Por tal, em jeito de Feliz Natal, deixo aqui uma fotografia tirada no Natal de 1970, aquando de uma passagem do meu pai, Samuel, e meu tio António Cavaca pelos "States". A rapariga é a prima Celeste pincha (já falecida).
Esta fotografia já é muito moderna, tendo em conta a árvore de Natal, mas se calhar esta será uma das fotos mais antigas 'ligada' ao Natal dos forninhenses, já que em Forninhos a árvore de Natal só apareceu no fim da década de 70, e só nas casas mais abastadas!! Foi surgindo pouco a pouco ao lado do tradicional presépio que foi (entre nós) durante muito tempo a única decoração de Natal. Contudo, nos dias de hoje, os forninhenses já se renderam aos pinheirinhos e iluminações de Natal.
Também a Igreja tem a sua Árvore de Natal e, como é de tradição, constrói o Presépio de onde sairá o Menino para ser beijado em adoração na missa do dia de Natal.
Para Todos Festas Felizes!!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Linhaça (Linum Usitatissimum)

No 'post' de hoje quero falar-vos da linhaça tão consumida hoje no pão, bolos e flocos de cereais, mas em tempos antigos guardadas religiosamente pelas nossas avós para combater o inchaço, reumatismo, artrose, etc.
Contam as netas de quem mais cultivava e melhor trabalhava o linho que as suas avós costumavam aplicar sementes quentes, no local desejado, de manhã e à noite. Mas afinal, como faziam para aquecer a linhaça? Perguntei. 
Em uma malga/tigela com água quente (preferível a ferver) colocavam 2 ou 3 colheres de sopa de sementes. Depois colocavam esta papa em um lenço ou pano limpo, dobrado para conservar o calor; deixavam arrefecer um pouco e aplicavam o emplastro, com a face aposta às dobras, na cara, no joelho, perna ou pé.


Como gosto muito das coisas que falam como era antigamente a vida em Forninhos, fui pesquisar sobre a semente das nossas avós e fontes de informação (isto dá um ar mais respeitável) dizem que a utilização da semente do linho (Linum Usitatissimum), também conhecida como linhaça, remonta a milhares de anos antes de Cristo (5 mil A.C.)!!!
A linhaça além de combater o inchaço, serve para reduzir o colesterol, diminuir peso, melhora o intestino, regula a pressão arterial, etc. e tal. Tem muitos poderes preventivos e curativos.
Como consumir esta sementinha?
Podem consumi-la de diferentes maneiras. Leiam com atenção e aproveitem para modificarem os vossos hábitos alimentares.
- Sementes de linho moídas com iogurte, sumos, saladas, sopas, misturadas com cereais, massa de pão e bolos e em todos os alimentos;
- Óleo, podem adquirir óleo de linhaça para dar sabor à preparação de vários pratos. Também pode substituir o óleo ou gordura utilizada numa receita. Por exemplo. Se uma receita pedir 1/3 chávena (de chá) de óleo, substitua-a por 1 colher de sopa de linhaça moída. 
- Farinha de linhaça para fazer pão, panados e todos os bolos que deseja para o Natal.

Foto: Cortesia do Contribuidor serip413.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Eu tive um sonho...


A expressão não é minha e o objectivo de Luther King era outro!
Também a imagem que hoje coloco não é de Forninhos. É da sala de vestes ou paramentos litúrgicos de um museu de arte sacra. Há porém em Forninhos material que permite encher um igual espaço com paramentos antigos, objectos litúrgicos, livros, imagens de santos (da igreja e capela), crucifixos, via sacra (quadros), bandeiras, guiões, imagens do presépio, umbela, confessionário, carreta fúnebre, etc., etc., fotografias de momentos desaparecidos, como procissões, andores, etc...
Deixem-me sonhar, que se a Igreja o desejar até tem um espaço: a abandonada casa paroquial, junto à bonita Matriz de Forninhos, que pode vir a ser o local certo onde tudo isto pode vir a "repousar" para ser preservado, observado, admirado e até estudado. 
Guardar, com cuidado e carinho, o que ainda nos resta, é contribuirmos para preservar a memória do nosso povo! 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

Casamentos


Tínhamos há uns tempos dedicado aqui um post às noivas, seus vestidos e acessórios e, assim termos memória de um dia especial e como a noiva se vestiu, nesse tempo.
Chegam-nos novas, neste 'capítulo', e hoje deixamos aqui um casório da década de setenta do século passado, para ver se reconhecem os noivos e os seus convidados, o que terá mudado até agora, o que recordamos dos casamentos de outros tempos...
Olhando para esta fotografia e tempos que lá vão, eu recordo uma tradição bonita e divertida, mas que como tantas outras, só perdura hoje na memória dos forninhenses que têm mais de 40 anos de idade - a tranqueira - uma  fita de seda que impedia o seguimento ou o andamento em ritmo normal dos convidados. 
Depois da cerimónia acabar, no portão e portal da igreja as crianças, principalmente as que não eram convidadas, colocavam a tranqueira e só deixavam passar os convidados depois deles receberem moedas.
Este era um momento entusiástico nos antigos casamentos da nossa terra!

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Míscaros e Cogumelos

Hoje deixamos uma mostra da apanha do míscaros de Aguiar da Beira, das várias espécies que os grupos participantes encontraram nas matas das freguesias de Coruche e Valverde, o míscaro amarelo, o míscaro roxo, as sanchas, os tortulhos "frades", os boletos, etc. etc.., pelos vistos, todos comestíveis.
É de louvar esta iniciativa, veja bem porquê:

 Pau afiado, pois claro, trata-se de ir aos míscaros e não arrancar batatas!
 
 
 
 Saco plástico? Não Sr.! Cestinha, que é para a semente cair 
e ficar no local e dar continuidade à criação.
  
 
 
 

Este Outono não houve a quantidade desejada, talvez devido aos incêndios de Agosto, mas quem os aprecia decerto apanhou e aprendeu mais sobre o tema. Esperamos que sirva de incentivo para uma breve visita à nossa terra e se não houver "cogumelos" ou não os conhecer, visitem-nos na mesma, apreciem a paisagem, pois vale sempre a pena.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Mezinhas caseiras

Já não é a primeira vez que falo em mezinhas aqui n'O Forninhenses, pois sou fã dos truques que o povo ao longo dos séculos encontrou para se defender dos males. Só que não é desses remédios que vamos agora falar, mas de truques caseiros que os nossos avós usavam para afastar bichos e combater bicharocos. Por exemplo: Sabe para que servem os cabelos (do barbeiro)? E a fuligem da chaminé? Ao ler o resto do 'post' vai saber...


Em Forninhos os agricultores espalham cabelos cortados nas hortas para evitar que os coelhos bravos comam as couves. Parece que também funciona com os javalis.
Para combater as lesmas que atacam as hortaliças espalham sal na terra. O sal na terra serve também para matar o alfinete do milho e das batatas.
Mas estamos ainda em Novembro de 2013 - "dos Santos ao Natal é inverno natural" - então, nestes dias de muito frio é costume usarem a cinza e a fuligem da lareira nas suas hortas. A cinza, disseram-me, tem duas finalidades: evita que os pássaros comam as sementes, por exemplo, do cebolo, já que assim têm mais dificuldade em vê-las e serve também para aquecer a terra. 
A fuligem da chaminé é usada, sobretudo, no canteiro dos alhos, para os fortalecer.
Será que funciona?
Experimentem, pois sem agrotóxicos, os alhos e hortaliças serão orgânicas e só farão bem à saúde.
Frequentes nas hortas também são as escova-terra (as toupeiras) que podem estragar muito os canteiros e jardins. Fazem grandes montes de terra e desenraízam as plantas. A solução é também usar um remédio caseiro ou uns canudos, mas confesso: não sei o que melhor as afasta...
Certamente terão mais informação a acrescentar a esta minha recolha; é só uma questão de avivarem a memória.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Andam os Lobos sobejos

Dizem que são animais bons e que na sua comunidade adoptam as crias orfãs, alimentam-nas tal como às lobas que dão leite, dividindo sem violência as presas que capturam, numa partilha orgulhosa. Mas o que perdura na memória, ainda são os medos.
Vi-os numa noite de inverno da varanda da casa de meus pais. Lá estavam na mata da Estrecada, olhos que nem faróis e o tio Domingos, candeeiro de petróleo na mão a subir a ladeira.  Ia ver se a loja onde pernoitava o rebanho estava bem fechada. Homem intrépido, tal que os lobos devem tal ter sentido que desandaram.


Agora que o frio já chegou, traz à lembrança tempos passados, já lá vai quase meio século, em que eles abundavam nas nossas serranias, terror dos rebanhos, dos pastores e gentes da aldeia. No pico do frio vestido de chuva, gelo e neve, os rebanhos eram recolhidos a meio da tarde para prevenir... e na ausência de presas, esfomeados, eles desciam até Forninhos por caminhos e carreiros. Desciam por Valongo desde a aldeia da Matela, atraídos pelo cheiro da recente matação dos porcos, ainda dependurados no chambaril, escorrendo para a desmancha. Andavam com fome e atrevidos, qual desafio entre homem e animal.
Alertados pelos intensos latidos e rosnar dos cães, em casa fazia-se silêncio, enquanto se sentia o cheiro da lareira, fechavam-se as portas e janelas, com medo, medo esse que por vezes punha as pessoas "sobocadas", arrepiadas e de cabelos em pé. Ficava-se de atalaia até o uivar feroz do bicho  e o seu bater das "castanholas", fosse desaparecendo, largando a porta bem fechada da loja aonde o porco estava guardado, e depois deambulava pela aldeia fantasma,  pesarosa, amedrontada e recolhida por o "diabo" a ter invadido, sem medos, afrontando cães e alguns matando - andavam os lobos sobejos - quer dizer: ousados, atrevidos.
Para prevenir a vida dos cães, foram adoptadas coleiras pontiagudas ao pescoço, como no caso do cão do tio Daniel, maior em corpulência que os lobos, mas nunca fiando! 
Tinha as ovelhas para guardar em Cabrancinhos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sugestão de fim-de-semana

Já alguma vez provou um belo prato de arroz de míscaros combinado com um maravilhoso vinho? Então venha a Aguiar da Beira no próximo fim de semana, ao I Certame Gastronómico do Míscaro, evento que será promovido pela Câmara Municipal, para a divulgação desta excepcional iguaria, contando para tal, com a preciosa colaboração dos restaurantes locais (vide mapa abaixo).
Para além do Festival dos Míscaros a realizar nos restaurantes aderentes nos dias 23 e 24 de Novembro, haverá ainda outras actividades. No Domingo 24, com início às 09h30, saída de campo com a apanha do míscaro, tasquinhas com provas, palestra "boas práticas na apanha dos cogumelos", actuação do Grupo "Raízes da Terra", etc... 
Até parece mentira, mas não...foi anunciado no site da Câmara Municipal de Agb! E parece mentira, porquê?
Porque todos quantos têm prestado atenção, sabem que desde o dia 20 de Novembro de 2009,  uma vez por ano, todos os anos, tenho aqui sugerido que a par das caminhadas na natureza podiam organizar também no concelho um passeio micológico, com uma almoçarada de míscaros. Portanto, é com muita satisfação que constato que finalmente, no Outono de 2013, deu-se início a este tipo de evento, sim Sr.!
Parabéns.
Localização dos Restaurantes Aderentes
Dias 23 e 24 de Novembro - I Certame Gastronómico do Míscaro de Aguiar da Beira. VENHAM VISITAR-NOS!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Como falam de ti minha aldeia

«FORNINHOS a terra dos nossos avós» é o título do "livro"de que falarei aqui hoje, de como falam da minha aldeia. O que dizem, como o dizem, a verdade e a incorrecção, a metade que ali se diz - e eu acrescentarei neste texto a outra metade...encontrei coisas até curiosas, mas esperava mais, muito mais...
Foi apresentado pela autarquia local no passado dia 10 de Outubro de 2013. Trata-se de uma obra que, ao longo de 223 páginas, faz um levantamento do património material e imaterial de um povo - Forninhos - avaliando a sua evolução rumo à modernidade. 


Como falam de ti, Forninhos, meu torrão natal!
Desde logo, na pág. 7, uma introdução, umas generalidades, e a opinião de quem procurou ouvir uma terra que não conhece...
«Aqui ouvimos a terra. Uma terra simples de gente pura e trabalhadora. Gente que sempre viveu em comunidade, que ri que chora. Gente que ama a sua terra! Que sabe ultrapassar dificuldades em conjunto e orar. Que sabe construir e dizer mal. Que partiu para o Mundo, mas nunca esqueceu as suas origens.».
Fui até à pág. 13 e encontrei até mais do que pensava:
«A nossa terra é a nossa vida, é tudo aquilo que construímos, são as pessoas com quem convivemos e amamos, mas é também tudo aquilo que nos envolve e cria memórias. São os cheiros da urze, o som do clero - viste lá o clérigo, lá o vi, lá o vi - as penedias escorregadias, o gelo a quebrar na terra sob os pés, o talegre no alto do Castelo, a cor das maias...são os pores-do-sol.».  
Algumas citações, significados e correcções úteis!
Urze em Forninhos são as urgueiras e as maias são as giestas amarelas.
Agora, descrição sobre o "Lagar rupestre de São Pedro 1", pág. 29:
«Lagar escavado sobre um batólico tipo lage que apresenta ao centro um calcatorium retangular, com 255 cm de comprimento, 206 cm de largura e 15 cm de altura, e um conjunto de três stipites com um cumprimento máximo de 80 cm, uma largura máxima de 25 cm e uma altura máxima de 30 cm. Na visita que José Coelho faz ao local em 1935, regista este lagar atribuindo-lhe, no entanto, uma funcionalidade religiosa intitulando-o como "Santuário pré-romano". Importante é a referência do achado de um peso de lagar numa das ruas das ruínas de S. Pedro de Verona (Coelho, 1948:289).».
Correcção: 
As pessoas que eu conheço e que são quem viveu em verdadeira comunidade afirmam que a rocha/lage que se encontra a sul e junto do local do antigo povoado, é chamada de  "Forca" e não lagar rupestre de São Pedro 1 . São os forninhenses que estão errados ou são "os do livro" que estão certos? Se calhar é a lei da vida das palavras... 
Pág. 35, sobre um sítio romano da Pardamaia ou Pedra Maia:
«Localizado no topo de uma ligeira colina, esta interessante estação arqueológica espraia-se pela encosta sul sendo possível observarem-se vestígios materiais do que teria sido há cerca de 2000 anos uma quinta (villa).». 
- Mas existiu uma villa romana na Pardamaia, Forninhos?
Que os romanos passaram por Forninhos ninguém duvida, mas daí a ter havido/a haver uma villa romana em Forninhos vai uma grande distância...
O que se disse (escreveu) sobre a capela de S. Pedro, pág. 36:
«Neste povoado, denominado de S. Pedro, são ainda visíveis os restos de uma capela em redor da qual estaria uma necrópole, da qual apenas restam alguns sarcófagos partidos em granito. A capela cujo orago é S. Pedro de Verona, encontra-se praticamente arrasada, não sendo possível fazer mais ilações sem intervenções arqueológicas.».
Primeiro: Em S. Pedro não são visíveis quaisquer restos de uma capela! Segundo: aproveito para complementar neste "livro" que para além desses sarcófagos partidos, outros foram levados com a permissão e o consentimento de membros da Jf, o que estranhamente o autor (ou autores) esquece de dizer (escrever)!
E não podia terminar sem deixar de registar o que se lê na pág. 86:
«Outra característica da terra que se reveste em Forninhos como um ritual de abundância e de sucesso de um ano árduo de trabalho no campo está materializado na "matação" do porco, que por norma ocorre no início do ano. Os homens encarregam-se de ir buscar o animal e conduzi-lo para a morte. As mulheres preparam os alguidares de barro para recolher o sangue que dará a forma e sabor aos enchidos. O animal no fim de morto é chamuscado com carqueja, pendurado e desmanchado.».
Atenção leitor: não se deixe levar por aqueles que pensam conhecer Forninhos. Com realismo, digam lá, alguma vez em Forninhos o porco foi/é chamuscado com carqueja?
Dá que pensar.

Nota:
1-Iniciamos então hoje uma nova "etiqueta" que pretende publicar neste blog a realidade aldeã de "Forninhos a terra dos nossos avós" que também ajudaram a formar a nossa língua. E, fica aqui a promessa de que vou publicar, na medida das minhas possibilidades, outras opiniões vindas directamente do "livro", onde está evidente o desinteresse pelo linguajar popular.
2-Não resisto a citar, mais uma vez, aquele que criou uma vastíssima obra literária baseado no que aprendeu convivendo com a gente beirã. Aquilino Ribeiro referindo-se à linguagem da Beira «acabará por extinguir-se, desbotar-se e converter-se no idioma pilho, compósito, que para aí se fala, e se tornou oficial mediante a cumplicidade da ciência lexicológica.».

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O Rio da minha aldeia


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia 
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios 
E navega nele ainda, 
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
A memória das naus. 
O Tejo desce de Espanha 
E o Tejo entra no mar em Portugal. 
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia 
E para onde ele vai 
E donde ele vem. 
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo. 
Para além do Tejo há a América 
E a fortuna daqueles que a encontram. 
Ninguém nunca pensou no que há para além 
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. 
Quem está ao pé dele está só ao pé dele. 
Alberto Caeiro

Esta imagem inspirou-me a ler o poema "O Tejo é Mais Belo", do livro "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa. 
Falar de qualquer rio é sempre agradável, principalmente para aqueles que durante muitos anos com o rio conviveram. Mesmo, sem querer, a nossa vida está sempre, num qualquer momento associada a um curso de água. Rio ou ribeira. 
Forninhos pertence à Região Demarcada do Dão e para nós, forninhenses, o Dão é sempre o mais belo de todos, quando o não é, é pelo menos o melhor. Nasce na Barranha, concelho de Aguiar da Beira, e a foz deste rio é no Mondego, albufeira da barragem da Aguieira.
Mas gostava de deixar uma pergunta no ar - a todos os leitores - Qual é o rio mais belo de todos? 
Todos têm a sua beleza e características próprias, mas de certeza que existem particularidades que os diferenciam.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Homem das Castanhas

Apesar de falar sempre de Forninhos (o que é compreensível, já que este espaço nasceu para dar visibilidade a esta aldeia da Beira Alta) hoje deixamos uma mostra da zona lisboeta já que em 'post's' anteriores, temos referido o cheirinho da castanha assada no ar e os homens das castanhas que vão apregoando: "quentes e boas...quentinhas" "olha a castanha assada". Fica então um vídeo (Fado "O Homem das Castanhas", por Carlos do Carmo) para poderem deliciar-se com esta música:

"Quem quer quentes e boas...quentinhas?
A estalarem cinzentas na brasa.
Quem quer quentes e boas...quentinhas?
Quem compra leva mais calor p´ra casa."


Com o fumo perfumado no ar e música, desejamos um bom S. Martinho.

sábado, 9 de novembro de 2013

2009-2013 - Um tempo passado por aqui...

O tempo passou tão rápido que parece ter sido ontem que  criei o blog dos forninhenses por acreditar que para compreender o presente é preciso primeiro conhecer o passado e porque é um prazer registar, no presente, as vivências do passado. Falar de Forninhos hoje, é  falar sobre coisas que aprecio: memórias e estórias do mundo rural e de tudo o mais que tenho saudades.
No início pensei que tivesse só visitas de forninhenses, mas o tempo mostrou o contrário e surpreendi-me com a quantidade de gente interessada nos meus post´s. Agradeço a presença de quem diariamente por cá passa, mas  hoje, que o blog completa 4 anos de existência, o meu grande BEM-HAJA vai só para os que, até ao dia de hoje, participam, via comentários. Entendo que são quem reconhece o meu esforço, para que a cada dia a cultura forninhense seja mais conhecida e valorizada. 
A foto é uma lembrança de outros tempos. Nela revejo a minha tia Arminda e outras pessoas que ainda tive o prazer de conhecer. Quem é forninhense também pode descobrir quem é quem, pois é para isto que o nosso blog serve: descobrir...descobrir...descobrir...


Não é muito fácil encontrar no Forninhos de 1937 um grupo de raparigas a posarem para uma fotografia. Numa vista detalhada reparamos em alguns pormenores: nenhuma usa avental, uma peça de vestuário comum às mulheres forninhenses. Também não usam lenço na cabeça, peça também comum, mas se está atento repara que na escada/balcão, está lá uma rapariguita com um "adereço" na cabeça, que cruza por baixo do queixo/pescoço. 

2009-2013 - UM TEMPO PASSADO POR AQUI...muita informação, páginas que estão ao dispôr de todos para valorização da nossa terra FORNINHOS e a freguesia.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sabão caseiro em barra, como se faz


A receita:
Para fazer sabões caseiros utiliza-se gordura (azeite/óleo), hidróxido de sódio/soda cáustica (NaOH) ou hidróxido de potássio (KOH), vulgarmente conhecido por potassa e para dar espuma e cheiro, uma dose de detergente ou sabão em pó e água.
É tudo bem mexido numa calda ao lume e deixasse apurar até ficar uma pasta pronta para endurecer. Verte-se, com cuidado, numa base que seja lisa e aguente o calor. Depois é só deixar arrefecer e então é que se corta o sabão em barras e se talha aos bocados, à medida de utilizar.
Há muitos sítios na 'net' dedicados ao sabão artesanal. Por todos, escolhi um, que pode ler aqui.
Lembro que a minha mãe e tia Júlia também fizeram sabão, mas antes de escrever sobre este assunto, ainda fiz umas perguntas a várias pessoas e o que me disseram é que em tempos antigos, quando não havia detergentes, a maioria dos sabões caseiros não faziam espuma, mas acrescentava-se cinza, que ajudava a tornar o sabão mais "branqueador" e a gordura utilizada era o resto, borras do fundo, da talha do azeite. Se houvesse dinheiro, então comprava-se um cartucho de sabão em pó igual ao que os barbeiros usavam para ensaboar as barbas e assim o sabão fazia espuma e até parecia de compra. Mas há 60/50 anos em Forninhos só as famílias que tinham muitas oliveiras é que faziam sabão para lavar e corar roupa; já as menos beneficiadas, não podiam fazê-lo, mas hoje todas podiam fazer sabão caseiro, só que perdeu-se o hábito e desapareceu um conhecimento ancestral porque nós, os mais novos, não o continuamos. 
Têm razão e o blog dos forninhenses agradece esta partilha de saber-fazer e o sabão azul e branco que ilustra o 'post'.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O culto dos mortos

Sei que o tema morte é triste, mas como estamos na época em que o culto dos mortos é recordado por estes dias através de romagens às campas dos nossos ente queridos, por isto será esta a altura certa para falar dos rituais que havia na terra dos forninhenses, que ainda não desapareceram totalmente, apenas alguns condicionalismos da vida actual levaram a alterações, mas ainda assim acho que continua a ser diferente das grandes cidades.


Enquanto os parentes, vizinhos e alguns amigos rompiam num coro de choros, a pessoa que morria era lavada e vestida com a mortalha, isto é, a roupa escolhida pela própria para ver a Deus. Escolhera também o calçado. A mortalha era guardada e apenas uma ou duas pessoas sabiam onde se encontrava. Entretanto, alguém ia buscar a urna, sucedânea do caixão que antigamente mandavam fazer ao meu bisavó António Coelho, o carpinteiro que fazia os caixões.
Depois então era colocado o corpo no caixão e era velado por 24 horas em casa: por onde passam a "deitar-lhe água benta", a rezar-lhe pela alma e a confortar a família. A sala da casa era "transformada", os armários, quadros, espelho, rádio e televisão (se havia), tudo era coberto com uns panos pretos que traziam da igreja. No espaço do meio ficava o caixão. Aos seus pés era colocada uma caldeirinha de cobre com um raminho de oliveira e água-benta. Aqueles que queriam prestar a última homenagem faziam-no espargindo água benta com o ramo sobre o corpo, faziam-no e ainda fazem, tanto à chegada como à partida. Por isso se dizia e diz que "vou deitar água benta". Na cabeceira, a parede era revestida com um pano preto bordado a dourado e no meio ficava um crucifixo e uma mesa transformada em altar. Sobre ela uma toalha branca e 4 candeeiros de azeite com 3 torcidas de algodão e um prato com uma tesoura para cortar o pavio.
A posição das mãos do morto também não eram ao acaso, essas ficavam sobrepostas sobre o peito.
Entrementes, a freguesia é notificada pelo toque de sinais. No fim do sinal 2 badaladas repenicadas no sino maior dizem que foi mulher; 3, que foi homem. Havia também o toque dos anjos (quando uma criança morre) que era uma entrada grande como a convidar para a missa de Domingo.
Dá-se parte ao Sr. Padre e combina-se com ele a hora do funeral; e os avisadores da Irmandade, se o defunto fôr Irmão, avisam o povo, com uma campainha, da hora do funeral.
E, de noite, muitas pessoas rezam com os familiares o terço e vários pai-nossos pelo defunto e pelas almas do purgatório. Mas quem ficava (e fica) toda a noite precisa de se alimentar. Assim, numa bandeja havia sempre bolachas para os acompanhantes da família comerem e bebia-se aguardente.
Não raro porém, passados os primeiros momentos em que se deitou água benta e rezou junto ao cadáver, o ajuntamento com ditos, estórias, anedotas, descamba em "arraial". Por vezes até a família ri. "Coitado de quem morre" costuma-se dizer.
Funerais
Na hora do funeral, os sinos fazem a chamada, e todos acorrem acompanhar aquele irmão ou irmã à última morada. Hoje, os que vão ao funeral reúnem-se na casa mortuária, mas dantes reuniam-se e esperavam o Sr. Padre e a Irmandade à porta do falecido, seguindo depois a pé a procissão para a igreja. Ao passar junto de qualquer Cruzeiro, seja ou não de Alminhas, o acompanhamento pára  e reza um responso. No fim da missa vai-se de novo, em procissão, até ao cemitério, até à sepultura. Chegava o momento da despedida, onde tínhamos um momento muito marcante: muito choro e gritos da parte dos familiares mais próximos. Lembro-me de algumas mulheres viúvas a gritar muito alto, não só a sua dor, como a enaltecer as qualidades do marido que tinha partido.
A seguir, deixado o cemitério, como sempre e em toda a parte "mortos à cova, vivos à mesa".
Duração do Luto
As viúvas - guardavam luto por toda a vida ou por tempo indeterminado. Vestiam-se todas de preto e no 1.º ano nem as meias podiam tirar por muito calor que estivesse e o lenço era atado por baixo do queixo, significativo de tristeza. Aos homens bastava o fumo preto no casaco e a fita preta no braço.
Os filhos, pelos pais - dois anos, começando depois de um ano a aliviar.
Os irmãos - um ano.
Os netos, pelos avós - meio ano.
Os sobrinhos - quatro meses.
Os afilhados - um mês.
Sobre os rituais da morte quero ainda destacar o seguinte: na missa do mês a família distribuía um pão por cada casa (ainda hoje é habitual, só que agora é distribuído mais aquando da missa do 7.º dia). Além das missas pela sua alma, havia também o "Cantar às Alminhas" na quaresma, que é mais uma expressão do culto e devoção aos mortos, costume a que noutro "post" fizemos já referência. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Bodas de Ouro - 26.Out.1963 - 26.Out.2013

Saudamos a confirmação dos votos de Ana e  Coelho 
nas Bodas de Ouro


Celebradas na Igreja Paroquial de Forninhos.

O amor não tem idade 

e está sempre a nascer... 

e, assim, o casal sénior confirma os votos 

que fizeram há cinco décadas!!!!!

a celebração emociona e faz chorar a família

...e amigos 

Cumprimento de parabéns e muitas felicidades!

Com os netos...coisa mais linda de se ver!

depois com os convidados

que cantam os Parabéns a vocês nesta data querida

mais uma vez: muitas felicidades e uma salva de palmas.

Tchim, Tchim! 


E foi assim que o casal, Ana e José, naturais de Forninhos, comemoraram no passado dia 26 de Outubro, pelas 11h00, os 50 anos de casados, na Igreja Paroquial de Forninhos, seguido de almoço de confraternização entre família e amigos. 
O blog dos forninhenses deseja que esta data seja sempre uma marca de felicidade e que, com saúde, continuem a marcha para as próximas. 

Fotos: XicoAlmeida.
Texto: aluap.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A nossa Aguardente

Tão normal como fazer o vinho, era o fabrico de aguardente no alambique de cobre, que os nossos avós normalmente encomendavam aos latoeiros de longe, de Rio Tinto. E, porque eram poucas as pessoas que tinham o seu próprio alambique, era muito frequente cobrar por se fazer aguardente no alambique alugado (ou próprio). Em Forninhos, nem por isso, mas noutras terras chegava a andar um homem todo o dia a cobrar de casa em casa. 
O alambique ficava no pátio de uma casa, à medida que os moradores combinavam os dias para fazer a aguardente.


Depois de feita a vindima, pisados os cachos e feito o mosto, que serve para encher as pipas de vinho (hoje, vasilhas de inox), ficam no lagar, a escorrer uns dias, os restos: o engaço (pedúnculos e ramificações dos cachos), as peles e as grainhas das uvas. Então depois era colocado o canganho numa dorna e aterrado com folhas de videira ou de figueira e por cima terra, e assim se conservava e se evitava que se lhe juntassem os mosquitos.
Chegado o dia de fazer a aguardente. 
Primeiro de tudo, coloca-se um pouco de palha no fundo do pote (parte de baixo), para não agarrar, com cerca de 10 litros de água ou vinho atrasado e, de seguida, enche-se o pote de canganho. Nota: o pote do alambique da imagem, depois de cheio, leva 10 ou 15 litros de água ou vinho, consoante o aperto do canganho. 
A parte de cima, a alquitarra, enche-se com água fria.
Alto!
Antes é afixada com a ajuda de uma massa de farinha (de centeio) com água, para vedar a água e o vapor.
O pote é colocado em suportes próprios, em cima de lume forte, para a mistura ferver e libertar o vapor que é obrigado a sair pelo cano/tubo comprido (condensador/serpentina), que desce de cima, passando por dentro da alquitarra com a água. Quando começa a destilar, convém manter sempre o mesmo corrimento, pois o lume que arde e dá o calor deve ser mantido mais ou menos constante, com boas brasas e sem chama. Se escorrer demasiado, passa-se um pano molhado à volta do pote. Se não deitar o suficiente mete-se mais lenha, usando sempre este método até sair fraca...
Costuma-se usar um copo pequeno para provar a aguardente: se é saborosa, se é forte ou fraca...mas ao lançar-se um pouco dela às brasas, se as incendiar, fazendo chama, é sinal de estar forte... 
A primeira aguardente retirada, cerca de 2 jarras, parece água destilada, e só à medida que decorre a fervura vai sendo cada vez mais forte, no fim, já sai mais fraca. Era também normal misturar (caldear) a aguardente mais forte com a mais fraca.
A aguardente sai quente e depois é guardada em garrafões, dantes de cântaro e/ou almude, que seriam conservados bem fechados, depois da aguardente ter arrefecido. 
Durante o fabrico da aguardente no alambique, assam-se batatas, cebolas e bacalhau. Mistura-se tudo com bastante alho e o nosso bom azeite e acompanha-se com o vinho tinto da casa.
Presentemente, parece que estes alambiques já pouco são usados (dizem que agora é proibido) e a maioria das pessoas faz a sua aguardente nas Cooperativas da zona, em Sezures e Rãs.