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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O Tribunal do Santo Ofício actuou em Forninhos

A inquisição foi estabelecida em Portugal, em 23 de Maio de 1536, a pedido do Rei D. João III, em principio destinada a combater a heresia no seio da Igreja Católica. Com este post pretendo melhor conhecer a História e o papel desempenhado pelo Santo Ofício e a mentalidade social da época, bem assim a problemática das divisões então existentes entre cristãos-novos e cristãos-velhos.
Capa do Processo da Inquisição de Lisboa do  Sol. Manuel Nunes


Pelos Tribunais do Santo Ofício passou um membro do  Clero, Paulo Pais, Padre-Cura da Igreja de Santa Marinha de Forninhos, natural de Fornos de Algodres, mas morador  em Santa Marinha de Forninhos, o qual foi acusado, em 16 de Abril de 1617, da prática de concubinato, de que se livrou com castigo não averbado no processo em Dezembro do mesmo ano e um soldado, natural do lugar de Forninhos, freguesia da Villa de Penaverde, bispado de Viseu, mas morador na cidade de Lisboa, de seu nome Manuel Nunes, acusado de ter contactos forçados com herejes quando foi feito prisioneiro pelos holandeses e de cujo processo consta apenas a confissão de suas culpas e informações com especial interesse para a sua carreira militar. 
Manuel Nunes era cristão velho,  solteiro, sabia ler e escrever e era filho de Pedro Gonçalves, lavrador, e de sua mulher Maria Nunes, naturais e moradores em Forninhos. No processo, constituído por 32 folhas, não menciona os nomes dos avós paternos, por os desconhecer, embora diga que eram lavradores, naturais e moradores em Forninhos. Quanto aos avós maternos, também lavradores, refere que só sabe o nome do avô materno, António Nunes, natural das Antas, concelho de Penalva, bispado de Viseu.
O soldado Manuel Nunes tinha 26 anos de idade a 10.10.1658, quando se apresentou voluntariamente na Inquisição de Lisboa, perante o Inquisidor Rodrigo de Miranda Henriques, para confessar as suas culpas. Da sua confissão constam as seguintes informações com especial interesse para a sua carreira militar: treze anos atrás (1645), embarcara em Lisboa com destino ao Estado da Índia. Chegando à cidade de Goa, quatro meses depois mandaram-no para a ilha de Ceilão para servir como soldado, onde permaneceu cerca de doze anos. Nessa altura, os holandeses acabaram de tomar o que faltava por conquistar da dita ilha e acharam a ele réu na fortaleza de Caleturé (?), aonde foi cativo e levado à cidade de Jacataria (?) aonde residiu onze meses, e por o meterem logo em prisão apertada enquanto não havia embarcações para o passarem à Holanda, foi obrigado dos trabalhos em que se via para melhor ter liberdade a assentar praça de soldado dos ditos holandeses, como com efeito assentou, e recebeu seu soldo nos ditos onze meses acudindo as sentinelas e às mais obrigações como os mais soldados holandeses. Manuel Nunes declarou também “que por alguns meses no dito tempo fez saídas ao campo a pelejar com os mouros, porém nunca pelejou com católicos, nem o determinava fazer, porque logo quando assentou a dita praça declarou que era com condição de não ser obrigado a pelejar com católicos cristãos.”.
Declarou ainda que sendo forçado a conviver diariamente com os soldados holandeses no baluarte da cidade onde viviam, assistia todas as noites às “suas rezas e orações”, embora não as entendesse nem participasse delas. Disse também que nesse tempo “comeu carne nos dias proibidos, porque não tinha outra coisa para comer”, etc...
Finalmente, informou que antes de regressar à cidade de Lisboa esteve na Holanda, onde conviveu com todo o tipo de pessoas. Ao longo da sua confissão, refere que nesses anos teve como companheiros outros 11 militares portugueses, igualmente presos pelos holandeses e a quem também serviram como soldados, os quais eram naturais de outras terras portuguesas.
Declarou ser católico praticante, baptizado na igreja de Santa Marinha, do lugar de Forninhos, pelo Padre António Nunes, Cura do dito lugar e já defunto, sendo seu padrinho Jácome de Almeida, do lugar das Antas. Disse mais que foi crismado na igreja de Santa Justa, em Lisboa, pelo Arcebispo de Lisboa.
Considerando que a confissão foi voluntária, estava arrependido e pedia perdão. Linitou-se a sentença de 12.10.1658 a adverti-lo a não reincidir nas culpas confessadas e a manter-se um fiel católico, cabendo-lhe pagar as custas do processo. 

Custas Finais do Processo
À excepção destes dois processos que decorreram na Inquisição de Lisboa e de Coimbra, não passou pelo Santo Ofício nenhum forninhense acusado da prática de judaísmo, mas aproveito para lembrar que a comunidade judaica também teve uma assinalável presença em Forninhos, pois já vi algures escrito que a freguesia de Forninhos possui marcas cruciformes em ombreiras de portas, só que creio que foram destruídas aquando de alguma reconstrução, pois já percorri Forninhos "de ponta-a-ponta" e não encontrei quaisquer gravações. Mas não digo que não haja, digo que acredito mais que já não há.

Fonte: Torre do Tombo.

15 comentários:

  1. O processo do soldado Manuel Nunes (original) é constituído por 32 folhas, mas dentro do espaço de um blog achei melhor só publicar a Capa e Contas de Custas do Processo.De qualquer modo, podem ver na Capa e na descrição que fiz, embora sumária, que no Século XVII Forninhos já era assim identificado e que já tinha Igreja nessa época, pois lê-se que o Manuel Nunes, que nasceu em 1632, foi baptizado na Igreja de Santa Marinha, do lugar de Forninhos.

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  2. Paula como podes ver é viver, aprendendo e descobrindo, agora já sabes que na tua terra no ano de 1632, ou seja há 380 anos, Forninhos já existia com o mesmo nome, tinha uma igreja e a santa padroeira ainda é a mesma dos dias de hoje, Santa Marinha.

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    1. Imagina o meu interesse em saber que este soldado foi baptizado na Igreja de Santa Marinha, do lugar de Forninhos! É que se dizia que a Igreja de Forninhos é de 1731 e dantes era Capela.
      E até eu que pensava que o topónimo “Forninhos” tivesse cerca de 200 anos, através da Torre do Tombo tenho acesso ao processo original do soldado Manuel Nunes e fico a saber que já assim Forninhos era identificado.
      Às tantas com a colaboração de pessoas que gostam mesmo de história até se descobrem mais coisas interessantes, sem ser preciso gastar milhares de euros.

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  3. Embora no processo do soldado Manuel Nunes, conste que ele e a familia eram "cristaos-velhos", tanto o apelido "Nunes" seu e de seu pai e o "Goncalves" de sua mae, sao apelidos usados maioritariamente por "cristaos-novos", podera ser so coincidencia, ou podera ser algo mais!

    Ja quanto ao padre Paulo Dias, natural de Fornos de Algodres, so quero constar que de sacerdotes dai naturais e residentes, existem na "inquisicao" bastantes processos por concubinato e, ate varios perdoes reais e reconhecimento de filhos!!!
    Serao os ares da serra que despertam as hormonas?

    Um abraco e bom fim de semana.

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  4. Costuma dizer-se isso, que é por causa dos ares da Serra lolol
    Mas repare que na época não eram bem vistos, no entanto hoje até é bem visto, pelo menos, em Forninhos as "relações" e "aproximações" entre padres e mulheres é coisa banal.
    E quanto ao Soldado Manuel Nunes, não tenho conhecimento para avaliar se era cristão-novo, mas uma coisa eu sei, os judeus por cá foram sempre ostracizados, marginalizados, em muitas épocas até perseguidos pela Igreja, que se sentia ameaçada pela presença de outras crenças, sobretudo da “original”. E sei e você melhor sabe, que os apelidos “Nunes” e “Gonçalves” são de origem sefardita. Como começo a interessar-me muito pela presença de Judeus na nossa área, já conheço alguns nomes de Forninhos de origem serfadita e com isto até descobri que na minha família também há nomes: o meu trisavô paterno chamava-se José Dias de Andrade, mais conhecido por José Dias, pelo menos, garantiram-me que o “Dias” é de origem sefardita nas Beiras. Da parte materna herdei o nome “Rodrigues”.
    Para além dos nomes, há em Forninhos vestígios físicos? Não sei.
    Vou ficar atenta e a torcer pelo Projecto em construção “Forninhos Terra dos Nossos Avós” acompanhando “os gostos” e ler o que é é divulgado acerca da nossa história e memória no facebook, já que participar não posso…parece que “o Sol quando nasce” é só para os utilizadores do facebook e Forninhos-terra é só dos avós de alguns! Ou, então, uns são judeus e outros são católicos!


    Despeço-me desejando também um bom fim de semana.

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  5. Puxa, que interessante isso!Legal!beijos,chica

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  6. Tenho vindo pouco, por falta de tempo, mas aprendo sempre que venho. Belo trabalho, Paula. Receba um grande abraço. Tenha uma ótima semana.
    Gilson.

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  7. Sou batista por convicção e creio que os acontecimentos históricos desagradáveis como a Santa Inquisição, mesmo depois do pedido de desculpas por parte da igreja, o que também deve ser lembrado, possa ser revelado como no seu texto. Um abraço, Yayá.

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  8. Sobre o comentário da Yayá tenho a dizer que concordo que tal deve ser lembrado, tanto que trouxe aqui este assunto.
    Ainda a propósito da Igreja católica, no outro dia recebi um email da canção “DE COLORES”, a lembrar a muitos que fizeram o cursillo de cristandade. Estes cursos de cristandade foram um marco ali pelos anos de 1960 e poucos. Tenho pesquisado alguma coisa sobre o cursillo e quanto mais leio mais convencida fico que a perseguição católica durou até quase aos nossos dias.
    Também pesquiso muito sobre os sobrenomes e meus antecedentes e quanto mais leio sobre o assunto mais sede tenho de saber mais.
    Mas pode ser que um dia os forninhenses ganhem consciência e percebam que a história não se resume aos bolos de azeite e morcelas. Há também farinheiras, que foi um enchido que herdamos dos Judeus, sem carne de porco, como é óbvio essa foi introduzida depois.
    Podemos não conhecer na nossa aldeia património arquitectónico, pelo menos eu não conheço, mas acho que conhecemos algum gastronómico, bem como o imaterial onomástico.

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  9. Paula será que ainda existe alguém em Forninhos descendente deste antigo Forninhense?

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  10. Como parece que este soldado, de Forninhos só tinha a naturalidade, e como na nossa aldeia sempre houve muita emigração e migração interna, não sei...
    Só fazendo por exemplo a sua árvore genealógica. O “Nunes” vem do avô materno, natural das Antas. Mas o pai, Pedro Gonçalves, diz que é natural de Forninhos. Sabemos que em Forninhos há o sobrenome Gonçalves, mas não faço ideia se há alguma ligação. Se a família Gonçalves de Forninhos quiser fazer a sua árvore genealógica, tem aqui o princípio.

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  11. A rivalidade entre cristãos e judeus, ainda se encontra presente nos nossos dias, felizmente no nosso pais isso já não existe, mas na Irlanda do Norte isso ainda se verifica, assim o como Palestina, por isso podes ver que este não é assim um assunto tão fora de moda como isso.
    Quanto ao soldado, esse soldado desconhecido pelo povo de Forninhos, será que nos documentos aos quais tiveste acesso, não diz se deixou descendentes ou irmãos, é que estamos a 400 anos de distância o que equivale a quase 10 gerações, mas é bem provável que ainda exista algum descendente, se a família rodrigues tiver algum interesse, pode muito bem fazer o levantamento dos seus antecessores.

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    1. Por lapso mencionei a familia Rodrigues, onde queria dizer familia Gonçalves.

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    2. Desculpa João se omito algumas coisas, mas é só porque como bem vês em Forninhos ninguém se preocupa verdadeiramente com isto!
      Porém sempre digo que quanto a irmãos, sabemos que ainda hoje há grandes discrepâncias entre nomes de irmãos. Um exemplo bem real é o da minha família paterna. Os filhos do meu bisavó Coelho, uns levam só o último apelido do pai, outros levam outros. E só estou a falar de há cento e tal anos atrás. Acho que só a partir da minha geração as coisas começaram a “entrar nos eixos”.

      E ainda bem que cá já não há inquisição, na certa eu seria uma herege a atirar para uma fogueira acesa lol

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  12. Quantos soldados tiveram de renunciar à sua fé e viver como outros de outras crenças para poderem preservar a sua vida, depois quando voltavam ás suas origens eram apontados como hereges, e nesse tempo a Santa Inquisição vinha logo a terreira para fazer valer a sua justiça, mas ele antecipou-se foi o que lhe valeu, esta é uma época da qual não tenho grande simpatia, mas temos que a aceitar assim como como hoje temos de aceitar o holocausto Nazi.

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